O (in)Sucesso Escolar – Um Olhar Sociológico

12 de Janeiro de 2009

Trabalho Escrito – O (in) Sucesso Escolar

Filed under: Trabalho de ECM — musiua @ 18:03

O insucesso escolar constitui hoje um fenómeno complexo e abrangente cuja natureza e determinantes são de essência social.

Foi a transição da Escola Elitista cujo ensino era dirigido às classes sociais mais privilegiadas, para uma Escola de Massas, que promoveu a generalização do ensino para todos e consequentemente o aparecimento do insucesso escolar.

Contudo, este novo conceito de Escola, nem sempre contemplou a heterogeneidade e multiculturalidade dos alunos, e continuou a incutir aleatoriamente os conteúdos e a seleccionar desta forma os alunos mais aptos e a excluir os que não fossem capazes de acompanhar as exigências dos programas.

O insucesso escolar é um fenómeno que ocorre no seio de uma instituição escolar e diz respeito às disfuncionalidades presentes no indivíduo, escola e sociedade, bem como o modo de interacção entre eles. O conceito de insucesso também pode ser considerado relativo, pois é dependente do tipo de objectivos estipulados em cada instituição escolar.

A abordagem deste fenómeno não deve ser feita dissociada do factor escola e sociedade, mas sim tendo em consideração a convergência dos mesmos, na medida em que se influenciam mutuamente.

É possível distinguir o insucesso escolar sob o ponto de vista quantitativo e qualitativo. O insucesso escolar quantitativo diz respeito à não consecução dos objectivos propostos pela instituição escolar dentro dos limites estabelecidos e reflectindo-se pelas taxas de reprovação, repetência e abandono escolar. O insucesso escolar qualitativo refere-se à desadequação dos conteúdos leccionados na escola com as aspirações individuais do aluno, face às exigências impostas pela sociedade e ao tipo de mercado de trabalho nela existente.

As manifestações do insucesso escolar são múltiplas, podendo ir desde o abandono da escola antes do fim do ensino obrigatório, passando pelas reprovações sucessivas que dão lugar a grandes desníveis entre a idade cronológica do aluno e o nível escolar, até à passagem dos alunos para tipos de ensino menos exigentes, como é o caso de cursos profissionalizantes, que de certo modo os afasta do ingresso ao ensino superior.

 

Factores que influenciam o (in)Sucesso Escolar

O conceito do termo ‘insucesso escolar’ acaba por surgir aquando da massificação do ensino e com ele apareceram também teorias explicativas de tal fenómeno. A partir de aqui, começam a ser estudados os factores que podem influenciar o sucesso/insucesso escolar.

   1. Família

        1.1. Nível sócio-cultural da família

Um dos factores a que deve ser conferida particular importância diz respeito ao nível cultural da família. Dados estatísticos comprovam que alunos que vivam num clima cultural quotidiano são os que obtêm uma menor taxa de insucesso, isto porque se encontram sensibilizados aos estudos, sabendo que serão propícios ao seu êxito. Um caso particular é a riqueza do vocabulário que será reflectida nos filhos, pois quando estes ouvem mencionar os objectos pelos nomes apropriados, contraem o hábito de proceder do mesmo modo, mas se o vocabulário familiar for pobre e limitado e os termos usados inadequados, adoptarão um modo aproximado e vago de falar.

De um modo geral as condições sócio-económicas estão relacionadas com:

  • Ocupação diferenciada do espaço, no que se refere à distância geográfica da escola e o habitar zonas residenciais degradadas. Os alunos que moram longe da escola são obrigados a fazer um esforço maior e acabam por ficar sem vontade para estudar. Os alunos que vivem em zonas degradadas estão propícios à aquisição de hábitos culturais e de estudo pouco relacionados com as exigências do sistema de ensino;
  • As diferentes formas de satisfazer as necessidades básicas, nomeadamente alimentação racional, vestuário, habitação;
  • O acesso diferenciado aos bens de cultura: livros, jornais, espectáculos, arte;
  • A necessidade de aumentar a renda familiar, com mais um vencimento, leva a que muitos alunos abandonem o sistema escolar;
  • A incapacidade de suportar custos com livros, material escolar, transportes, roupa, etc.

 

Existe uma forte relação, pelo menos nas classes sociais mais baixas, entre o nível económico e o nível cultural do agregado familiar. As classes com capital cultural médio-alto e alto tendem a facultar aos seus filhos orientações relacionadas com um futuro de qualidade, enquanto que as classes populares tendem a incutir nos filhos uma perspectiva de futuro próximo, na medida em que se procura diminuir os custos e adquirir resultados imediatos.

Alguns exemplos de influência cultural da família são:

  • Vigilância dos trabalhos escolares

Este factor pode estar relacionado com o nível cultural da família, na medida em que pais com um bom nível cultural estão mais aptos para ajudar os filhos nesta tarefa, o que nem sempre acontece, devido às exigências profissionais dos mesmos, que lhes impossibilita de agir por falta de tempo, acabando por contribuir para o insucesso. Acontece que muitas vezes as famílias menos instruídas fazem esforços para se encontrarem em condições de auxiliar os filhos, recomeçando os estudos ao mesmo tempo que estes. Para além de uma vigilância nos trabalhos de casa é ainda importante que o aluno seja orientado no sentido de organização do seu tempo.

  • Clima Afectivo

Há famílias cuja qualificação cultural é perfeitamente satisfatória, no entanto os filhos obtêm resultados fracos. É, pois, sem dúvida o clima afectivo que deixa a desejar. Um caso bem conhecido e bem frequente nos dias de hoje é o do desentendimento dos pais. Nestes casos, é notório os resultados do aluno baixarem e a atenção dissipar-se. Esta situação provoca no aluno uma sensação de insegurança e o temor de uma frustração.

  •  Perfeccionismo

A super avaliação do trabalho provoca também o insucesso, é o caso dos alunos que são obrigados a estudar constantemente e aos quais, não se dá o direito de sair para se distraírem. Devido a tanta pressão sob o aluno, muitas vezes, ao invés dos resultados pretendidos, vê-se uma espécie de desespero em relação ao trabalho acabando o aluno por se desmotivar.

 

     2. Organização Escolar

Ao longo da história a organização escolar e de ensino foi evoluindo e com esta evolução houveram também mudanças no sucesso dos educandos.

Sistema de ensino

Para analisar o sistema de ensino é importante sistematizar os indicadores de desempenho da escola. A escola nunca foi muito questionada quanto ao tipo de funcionamento, à forma como realiza os seus objectivos e à sua inimputabilidade no que respeita ao insucesso escolar, daí a inexistência destes indicadores de desempenho.

No entanto, é possível analisar alguns aspectos anómalos em si e que possivelmente contribuem para o insucesso escolar dos alunos:

  • Má dimensão da rede escolar quanto ao número de alunos por estabelecimento de ensino, no que respeita ao número de alunos por turma e até mesmo, às distâncias/tempo casa-escola que são significativas;
  • Existência de grandes lacunas na gestão dos estabelecimentos de ensino, quer devido a questões financeiras, curriculares, pedagógicas, gestão dos tempos, quer devido à falta de preparação específica dos elementos que desempenham essa função, causando muitas vezes um clima organizacional denso agravador de conflitos;
  • Falta de recursos financeiros não permite a resolução de alguns problemas: aquisição de material didáctico, equipamentos, espaços, contratação de pessoal auxiliar em número e com formação de base;
  • O currículo escolar na medida em que privilegia os saberes académicos e não contempla as aptidões de certos grupos de alunos;
  • A relação impessoal e formal Professor-aluno, resultado do elevado número de alunos por Professor,
  • O papel do Professor.
Serão abordados dois dos aspectos assinalados como causa de sucesso/insucesso associados ao sistema de ensino por acreditar que têm um grande peso nesta problemática. Estes aspectos são:  

 a) O Currículo académico

A escola ao pretender ser lugar de uniformização introduz currículos universais e propõe objectivos pouco programáticos, tendo em conta as realidades diferenciadas que são os alunos que a frequentam.

Currículos iguais obrigam o uso de iguais pedagogias e prevêem uniformidade nos resultados, nos comportamentos, na linguagem, no saber… acabando por esquecer que as escolas são compostas por alunos muito diferentes e com capacidades de aprendizagem diferentes. Geralmente os alunos provenientes de níveis sócio-culturais médio-altos podem atender a exigências linguísticas, posturas estéticas e saberes práticos privilegiados pela escola e pelos Professores, no entanto, o mesmo não sucede com as classes mais baixas.

Factores como estes, associados à incapacidade de descodificação das mensagens, sobretudo por parte dos alunos, criam bloqueios condicionadores da aprendizagem, acabando muitos alunos por reprovar.

 

 b) O papel do Professor

É um dos problemas mais delicados de analisar, pois os Professores dificilmente se reconhecem culpados do insucesso. Eles têm a convicção de que fazem tudo o está ao seu alcance para garantir o êxito dos alunos. Segundo M. Berge “quando dispomos de bons alunos, afirmamos que é graças ao nosso ensino; quando são maus, alegamos que a culpa lhes pertence”. (cf. AVANZINI, sem data: 107).

Frequentemente a culpa do insucesso é atribuída aos pais, à televisão, cinema, imprensa, tudo menos aos Professores. O papel do Professor é preponderante.

O insucesso escolar do aluno está muitas vezes ligado ao desempenho das actividades profissionais do Professor na medida em que este muitas vezes tem de leccionar fora da sua área de residência, em condições degradadas (sem apoios pedagógicos, com sobrecarga horária…), em condições desumanizadas (número elevado de turmas e alunos, falta de material didáctico e espaço), sem uma formação contínua ao nível da sua área curricular, entre muitos outros factores. Destes destacam-se um conjunto de situações anómalas como por exemplo, a falta de preparação para a docência, a não vinculação efectiva ao ensino e consequente desinteresse ou a não existência de qualquer dinâmica de investigação.

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